sexta-feira, 14 de agosto de 2009

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Me forcei a te inventar um cais. Em meio as carícias do mar infinito, me pareceu absurda a idéia de que pudesse haver algo além da imensidão azul que passara a ser a minha razão de existir. Mas isso foi antes da tempestade da tua inveja e do teu descaso, antes dos trovões que acordavam os vizinhos no meio das nossas brigas. E quando você saiu de cabeça erguida, pela porta da frente, eu fiquei.

Ficando, percebi que não conseguia destruir o que havia construído sozinha. E as ondas já não batiam no cais: batiam em mim. Não pareciam mais carícias, eram mais violentas, e vinham uma após a outra, castigando a estrutura e indiferentes a esse efeito. Tudo consumia, roía e sangrava.

Até que parou. Não aconteceu da noite para o dia, mas a estrutura, bem como meus olhos, estavam secos. As ondas não pareciam mais bater tão forte. Pude respirar fundo e sentir o cheiro de tudo, e notar o horizonte como não notara antes, nem mesmo quando você estava aqui, por causa de toda a atenção que você me exigia. O melancólico som do mar não era mais um grito torturante, mas um murmúrio de lembranças que, com sorte, até embalariam o meu sono. Até senti o gosto do sal, mas esse, que não era das lágrimas, não pareceu tão salgado.

Não esperava mais ser resgatada. Se aparecesse algum saveiro na linha do horizonte, viria para me fazer companhia nas tormentas e calmarias, e não para me salvar, nem me definir. Por isso, agradeço - o que você deixou foi a marca, em minha natureza, de saber viver à deriva.

Descobri depois que eu era o cais antes mesmo de você. O cais, e eu.

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