terça-feira, 18 de agosto de 2009

Por que idealizamos?

Não, sério, é uma atitude realmente estúpida.

O senso comum já começa a rechaçar essa prática, com um moralismo quase intragável, se não fosse plausível. Pretende idolatrar a imperfeição, o realismo e a intimidade, mas sempre guarda uma distância confortável da mesma. Nunca vem crua, nunca vem em sua totalidade - só até o ponto em que podemos suportar sem perder o encantamento. Aquele encantamento que nos é vendido a cada comercial de margarina, a cada rosto bonito e bem maquiado que vemos e a cada revista de fofoca que espiamos discretamente. O que idealizamos, é o que a sociedade vende como sinônimo de sucesso pessoal, e nós compramos, em maior ou menor grau. Uma pílula dourada, uma imagem impecável, um reconhecimento externo apreciadíssimo quando você mesmo acha que a sua vida é feia demais. Uma máscara difícil de manter, mas que é ainda mais difícil de largar.

E é porque nenhuma imagem idealizada resiste ao choque bruto com a atmosfera do real que a verdadeira perfeição, aquela pálida impressão de que encontramos algo realmente inédito e precioso, reside só nas coisas que encontram um fim abrupto e forçado. Toda a perfeição de uma época ou de um rosto fica congelada no tempo, antes que a realidade bata à porta, uma vez que não pode mais se esconder.

São nesses pequenos pedaços de falsa perfeição que chegamos mais perto da felicidade plena. Nunca conseguimos alcançá-la pelas vias do real, mas sendo privados da mesma contra a nossa vontade, passamos a carregar esse segredo raríssimo, de que ela não nos é permitida, mas existe. Aquela plenitude não é nossa, mas existe. Não durou, mas existe. Ela está lá, praticamente palpável. E essa existência é que tem a capacidade incrível de nos consolar através daqueles períodos em que a realidade parece muito dura - até ela volte a ser confortável e natural como era antes.

Sou só eu que tenho medo de esmiuçar memórias e fotos, e interrogar pessoas mais pessimistas e com melhor memória que eu, só pra descobrir que nada daquilo foi realmente tudo isso que eu lembro?

Só sei que me dou o direito de conceder autenticidade a qualquer espécie de beleza e grandiosidade exista só na minha cabeça.

O vermelho era sim brilhante daquele jeito, a água era realmente cristalina, o lugar era mesmo gigantesco, aquele sorriso foi lindo de verdade, você disse exatamente aquelas palavras, o verão foi realmente escaldante, e aquela paisagem de fato é a coisa mais linda que eu verei.

E aquela foto é, verdadeiramente, o cúmulo da beleza. A beleza ridícula e estúpida, e em sua totalidade.

Pronto? Agora rasgue.

Só assim dura. Só assim.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

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Me forcei a te inventar um cais. Em meio as carícias do mar infinito, me pareceu absurda a idéia de que pudesse haver algo além da imensidão azul que passara a ser a minha razão de existir. Mas isso foi antes da tempestade da tua inveja e do teu descaso, antes dos trovões que acordavam os vizinhos no meio das nossas brigas. E quando você saiu de cabeça erguida, pela porta da frente, eu fiquei.

Ficando, percebi que não conseguia destruir o que havia construído sozinha. E as ondas já não batiam no cais: batiam em mim. Não pareciam mais carícias, eram mais violentas, e vinham uma após a outra, castigando a estrutura e indiferentes a esse efeito. Tudo consumia, roía e sangrava.

Até que parou. Não aconteceu da noite para o dia, mas a estrutura, bem como meus olhos, estavam secos. As ondas não pareciam mais bater tão forte. Pude respirar fundo e sentir o cheiro de tudo, e notar o horizonte como não notara antes, nem mesmo quando você estava aqui, por causa de toda a atenção que você me exigia. O melancólico som do mar não era mais um grito torturante, mas um murmúrio de lembranças que, com sorte, até embalariam o meu sono. Até senti o gosto do sal, mas esse, que não era das lágrimas, não pareceu tão salgado.

Não esperava mais ser resgatada. Se aparecesse algum saveiro na linha do horizonte, viria para me fazer companhia nas tormentas e calmarias, e não para me salvar, nem me definir. Por isso, agradeço - o que você deixou foi a marca, em minha natureza, de saber viver à deriva.

Descobri depois que eu era o cais antes mesmo de você. O cais, e eu.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

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Me parece que todos os indivíduos solitários que conheci, por mais diferentes que parecessem, buscavam algo crucialmente similar. Não a felicidade em si, pois a felicidade é universal - mas essa particular modalidade de contentamento que consiste em reconhecer a si mesmo fora do seu corpo. A procura pode ser voltada para lugares, sensações, ações ou objetos, mas sempre tem a mesma essência - como se procurássemos pequenos pedaços do nosso todo.

São apenas caquinhos de espelho que nos refletem, mas que temos o mau hábito de nos deixar definir. E definindo-nos um pouco mais, vem o suspiro aliviado, e o comentário na ponta da língua: "Aí está você". Encontra-se alguém novo, em si mesmo. Tem-se uma companhia.

No final das contas, esse tipo de felicidade é a única forma de, mesmo estando sozinho, poder falar de si no plural.

domingo, 9 de agosto de 2009

04.08.09

E por um instante, ainda que breve,

o universo se resume a uma só verdade

e por causa dela algo em mim é mais leve,

e é dela que se alimenta a minha saudade:

Que se você me encontrasse

em cada esquina da tua vida,

a cada olhar, a cada batida,

eu pulsaria, no pulso teu,

antes mesmo que no meu pulsasse.